A conferência climática e o filme argentino se encontram no mesmo ponto: ambos revelam o custo humano da omissão política.
A COP 30 terminou em Belém – PA, sem uma resolução para a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento. A declaração principal da conferência, chamada de Decisão Mutirão não menciona os combustíveis fósseis em nenhum momento. Sequer para reafirmar o compromisso de dois anos atrás, sobre “transitar para longe” dessas fontes de energia.
Os 195 países aprovaram o Pacote Belém, que estabelece 29 decisões que inclui triplicar o financiamento para a adaptação até 2035, com o objetivo urgente de cumprir a meta 1,7 ºC, considerando que a situação atual do planeta já não permite a meta anterior de 1,5º C.
O pacote inclui fortalecer métricas de monitoramento e ampliar mecanismos de transição justa. O documento final carrega lacunas difíceis de ignorar e é justamente nesse ponto que sua narrativa se aproxima, de forma surpreendente, do filme argentino Belén.
Decisões frágeis têm consequências reais
Realizada na Amazônia, a COP30 reconhece a urgência de proteger direitos, considera vulnerabilidades e coloca comunidades tradicionais no centro das políticas climáticas. Apesar dos avanços, o texto final não estabelece o compromisso com a eliminação dos combustíveis fósseis, o que desaponta os que acreditaram em alguma solução.
Alguns pontos incertos são:
- A próxima conferência deverá ser um momento de implementação, pois não há mais tempo para negociação;
- Os 59 indicadores aprovados são importantes, porém voluntários de adaptação, ou seja, dependem de vontade política;
- O Capital privado, mobilizado via FINI é vista como essencial deverá escalar projetos de resiliência;
- O “Fundo Florestas Tropicais Parta Sempre”, apresentado pelo Brasil, é uma possível referência para biomas tropicais;
- A participação de movimentos sociais e povos indígenas foi ampliada, na tentativa de aproximar decisões climáticas à vida cotidiana.
A ponte entre o evento em Belém e o filme Belén
Lançado em setembro de 2025, o filme argentino Belén conta a história de uma mulher, que após sofrer um aborto espontâneo, é acusada injustamente de interromper uma gravidez de 8 meses dentro do hospital. A obra expõe a violência institucional, a criminalização do corpo feminino e negligência estatal que recai sobre quem já está vulnerável.
Assim como na COP 30, o filme Belén revela o que acontece quando políticas públicas falham em proteger pessoas, especialmente as marginalizadas. A protagonista é responsabilizada, no corpo e na vida por uma omissão estrutural. Reservadas as devidas proporções, o planeta tem vivido o mesmo: Comunidades inteiras sofrem pela ausência de decisões firmes que poderiam evitar tragédias ambientais, sociais e econômicas.
A raiz do problema é a mesma: Todos sabem dele, mas demoram demais para agir.
Passado o espetáculo, a cidade de Belém perde os holofotes e retorna aos bastidores, assim como Belén retorna a sua vida, anônima.
O Pacote Belém tenta corrigir parte das desigualdades, conecta justiça social, proteção ambiental e direitos humanos. Mas como lembra Belén, reconhecer não é suficiente: sem políticas concretas, a dor permanece, se repete e se agrava.














